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MAIS
INFÂNCIA, MENOS QUILOS |
Uma
em cada dez crianças está acima do peso no
mundo todo. Qual a causa dessa epidemia: o excesso de porcarias
na alimentação ou a falta total de espaço
para correr, brincar e, sim, queimar calorias? Cada vez
mais, os médicos concluem que a resposta pode estar
mais próxima da segunda alternativa.
Há algo de amargo no sabor da infância. A obesidade
infantil, que antes parecia exclusividade dos americanos
e de sua cultura de junkie food, já atinge níveis
preocupantes no Brasil, onde hoje cresce em velocidade maior
que nos EUA. É para ficar preocupado. E atento.
Dados do IBGE, colhidos entre 2002 e 2003, apontam que
o nível de sobrepeso e obesidade em meninos de 10
a 19 anos passou de 3,9% da população em 1975
para 18%. Entre as meninas, o salto foi de 7,5% para 15,4%.
Os pequenos – já não tão pequenos
assim – comem cada vez mais e correm cada vez menos.
Por causa da violência, da falta de espaço,
por tudo isso que a gente sabe. Pesquisa realizada pela
Ipsos Public Affairs para a marca OMO, da Unilever, que
tem o incentivo à brincadeira como uma de suas bandeiras,
mostra que, além do espaço, o tempo para brincar
também está escasso. As crianças de
classe C e D precisam ajudar os pais em casa. As de classe
A e B têm uma agenda de miniexecutivos para cumprir.
Brincar de ver TV
É, os pais reconhecem que brincar é importante,
mas parece ser da boca para fora. Não fazem muito
para incentivar a prática: 97% respondem que a principal
"brincadeira" das crianças é assistir
TV ou ver DVDs em casa. Em segundo lugar, empatados em 81%,
vêm desenhar e cantar ou ouvir música!!! Não
é demais??? Ainda bem que muita gente anda de bicicleta,
skate, patins etc. (79%), e joga bola (68%), mas as atividades
que não exigem mexer o corpo ganham terreno.
Sabe qual a porcentagem de crianças que brinca
no playground do prédio? Chuta. Só 3%! É
isso mesmo. E em praças e parquinhos, então?
Apenas 9%!!! Embora 56% ainda mencionem o quintal como espaço
para aprontar, a escola aparece como um dos principais locais
onde a farra é permitida, citada por 46%. Para 49%,
lugar de brincar é quarto (provavelmente, muitas
vezes, de ver TV...).
O resultado é o que vemos, senão ainda em
casa, bem perto da gente: crianças com peso de adulto.
E a coisa não é meramente estética,
não. O controle da obesidade é fundamental
para combater problemas de saúde que vêm junto
com os quilos a mais: distúrbios de pele, ortopédicos,
colesterol alto, hipertensão e diabetes tipo 2 são
apenas alguns deles. Depois de adultos, já que uma
criança obesa tem chances muito grandes de se tornar
um adulto obeso, ainda há o aumento no risco de doenças
cardiovasculares, diminuição da expectativa
de vida e aumento de problemas respiratórios. Sem
contar toda a carga psicológica. O remédio,
a gente bem sabe, é prevenir, porque remediar é
muito mais complicado.
Segundo a Organização Mundial da Saúde,
uma em cada dez crianças do mundo está acima
do peso ideal. Para ter a dimensão do que isso significa,
basta saber que hipertensão, colesterol alto e obesidade
estão entre os dez principais fatores de risco para
mortalidade.
Ao ver esses dados, é fácil se perguntar
por que as crianças de antigamente comiam algodão-
doce, churros, pipoca, mandiopã (aquele salgadinho
frito em muuuuito óleo), tomavam groselha e, ainda
assim, era bem mais raro ficarem gordas. A explicação
está exatamente no sumiço da infância:
pense se 20 anos atrás você ouvia falar em
criança estressada?
É só fazer as contas para ver que a ansiedade
dos pais para que o filho toque piano, seja bom de matemática
e fale inglês, espanhol, francês e chinês
– atrelada ao desaparecimento das brincadeiras de
rua – gerou crianças cheias de responsabilidades
e sem tempo para ser, simplesmente, crianças.
Esse fim da infância como a conhecíamos é
o que faz com que nossos filhos sejam cada vez mais propensos
a ter quilos além da conta. “No início
da vida é preciso aumentar os níveis de atividade
física, em especial as brincadeiras instintivas com
outras crianças, pois isso quase não existe
mais.
O nível de sedentarismo está aumentando
muito com toda a evolução tecnológica”,
explica o nutrólogo e pediatra Mauro Fisberg, pai
de Yuri.
Claro que não precisa botar fogo no videogame,
mas não dá para deixar que o filho passe horas
e horas e horas na frente da telinha. Bom senso, como sempre,
ajuda. E estar ligado no seu filho, coisa que você
que está lendo tudo isso, com certeza está.
Pula, brinca, sem parar!
Recentemente a Unesco (Organização das Nações
Unidas para a Educação, a Ciência e
a Cultura), divulgou uma pesquisa feita com 10 mil jovens
brasileiros entre 15 e 29 anos demonstrando que 57% deles
não têm atividade física. Na cidade
de São Paulo, um levantamento do Datafolha feito
em 2004 mostrou que 40% não praticam qualquer esporte.
Mas fica um aviso: nem adianta sair correndo e matricular
seu filho em mais um curso. “Mesmo que pratiquem balé,
natação ou outra atividade física fora
de casa, essas crianças voltam e já vão
direto para a frente da tela da TV ou do videogame”,
afirma a pediatra Lílian Zaboto, mãe de João
Guilherme e João Antônio. É, não
tem jeito. Não dá para criar aliens que nunca
viram um desenho na vida, mas é preciso maneirar.
Os especialistas recomendam no máximo uma hora e
meia de TV por dia. Felizmente, nem sempre a televisão
é a vilã da história. O seriado infantil
Lazytown, exibido pelo Discovery Kids, conseguiu elevar
em 22% o consumo de verduras e frutas em seu país
natal, a Islândia. Idealizado por um professor de
educação física, o programa tenta mostrar
que é bacana se exercitar. O mais incrível
é que funciona. “Já peguei minha filha
de 5 anos brincando de fazer flexões”, conta
Ana Lucia Costa, mãe de Marina.
A coordenadora do Instituto Movere, de São Paulo,
Vera Lucia Barbosa, mãe de Ivo e Melissa, explica
que, para as crianças de até 7 anos, a atividade
deve ser sempre lúdica.
“Vale muito mais a pena que a criança brinque
uma hora de pega-pega todos os dias do que fazer uma atividade
da qual não gosta, duas vezes por semana em uma academia.”
A entidade atende a população de baixa renda
e faz um trabalho multidisciplinar.
Mesmo dentro de um apartamento pequeno dá para
se virar. E trabalhar demais não é desculpa.
Por mais que seus filhos fiquem com a avó ou babá,
você pode orientar essas pessoas a incentivá-los
a pular corda, elástico, dançar dentro de
casa e subir os andares pela escada em vez de usar o elevador.
A TV continua ligada apesar de suas determinações?
“Uma vez aproveitei que o aparelho tinha quebrado
e dei um sumiço nele por semanas. Minha filha passava
então o dia no playground”, conta Ana Costa.
Mesmo incentivando seu filho a pular, não dá
para deixar de lado um certo controle da alimentação,
lógico. Dados do IBGE mostram que os hábitos
dos brasileiros à mesa mudaram bastante. E para pior.
O consumo de feijão diminuiu 35% entre 1974 e hoje,
o de arroz caiu 45%, já o de refrigerante cresceu
seis vezes e o de alimentos prontos triplicou!
A deterioração
vai além do aumento do consumo de produtos do tipo
biscoitos, salgadinhos e congelados industrializados. “Os
horários também são problemáticos.
Geralmente os pais trabalham fora e quem cuida prefere dar
o que a criança gosta de comer para que ela aceite.
O filho vai dormir tarde para conseguir ver o pai e a mãe,
dorme pouco, pois precisa chegar muito cedo à escola
e sai de casa sem tomar o café da manhã direito”,
explica a nutricionista Martha Paschoa Amodio, mãe
de João Pedro e Maria Clara, diretora da Comer e
Aprender, empresa que realiza projetos de reeducação
alimentar para escolas. E quem pula refeições
tende a comer mais.
Martha explica
que as crianças, mesmo as mais novas, têm condições
de aprender a escolher os alimentos mais saudáveis
e o que devem comer e que isso deve ser feito sem proibições.
“Hoje elas querem informação sobre tudo
e é muito mais fácil fazer com que comam verduras
e legumes se souberem para que servem na sua alimentação.”
E nada de considerar as redes de fast-food as vilãs
da história. “Elas fazem parte da vida social
das crianças. Só é preciso explicar
que não se pode comer aquele tipo de alimento todos
os dias”, completa.
Assim como não vale proibir os alimentos pouco
saudáveis, também não é prometendo
um bombom se seu filho comer salada que você vai ensiná-lo
a se alimentar. “Castigo com alimento não funciona,
só amplia a situação como uma bola
de neve. A criança passa a odiar a verdura em vez
de entender por que precisa comê-la”, explica
o nutrólogo Mauro Fisberg.
Uma opção é fazer associações
de forma menos direta, como ensina o psiquiatra Adriano
Segal, pai de Ana Carolina e Ana Luísa, diretor da
Abeso (Associação Brasileira para o Estudo
da Obesidade e da Síndrome Metabólica). “Nos
dias sem a verdura, a sobremesa é menos atraente
e quando ela está no prato é a favorita da
criança. Pode-se criar um padrão de associação
fazendo com que 'o dia da verdura' seja aguardado.”
Não bastassem os efeitos na balança e na
saúde, as crianças obesas ainda têm
de lidar com o preconceito. “Estávamos de férias
em um resort e algumas pessoas não paravam de olhar
para a Giulia. Na volta para casa, ela contou à psicóloga
que uma garotinha tinha falado que ela era muito gorda”,
conta Cristiane Pinto, mãe de Giulia, 7 anos e 50
kg. É na família que a criança se espelha,
por exemplo, para entender o que deve ou não comer
e quais são seus limites.
“A criança deve saber o que está comendo,
mas qualquer preocupação excessiva com a alimentação,
se é diet ou light, se engorda ou não... é
prejudicial. São idéias ou modismos de adultos,
não um comportamento infantil”, completa a
psicóloga infantil Flávia Escrivão,
filha de Maria Arlete e Álvaro.
Por isso o tratamento da obesidade precisa ter também
o acompanhamento psicológico e o envolvimento da
família por inteiro. “Um sintoma não
existe isoladamente. Ou seja, por trás de uma criança
obesa, há um problema maior, que está, com
certeza, relacionado ao sistema familiar. O terapeuta entende
que cada pessoa dessa família tem a sua contribuição
com essa obesidade. Portanto irá observar hábitos,
horários, como é a relação da
criança com a alimentação, quando isso
começou, se houve algum acontecimento que pode ter
desencadeado esse fato (o que muitas vezes não é
percebido pela família). Entender o contexto é
de extrema importância”, diz a psicóloga
Débora Dvoskin, filha de Sônia e Marcos.
Doce culpa
A pediatra Lílian Zaboto, responsável pelo
departamento de Obesidade Infantil da Abeso, lembra que
é bastante comum pais que tentam suprir a falta de
tempo e de afeto dedicado aos filhos trazendo guloseimas
quando voltam do trabalho. “A criança passa
a entender que a fonte de carinho é a comida e cria
uma relação errada com a alimentação.”
É essa mesma culpa que faz com que os pais não
consigam negar coisas aos filhos, já que a falta
de tempo os faz negar a convivência. Uma agência
de propaganda de São Paulo observou isso durante
pesquisas sobre a aceitação de uma campanha
de combate à obesidade infantil. “Tínhamos
uma proposta que era várias palavras 'não',
num estilo mais suave ou mais duro. Os pais descartaram
essa idéia por não querer assumir a responsabilidade
de negar as coisas aos filhos”, conta o diretor de
criação da Nova S/B, Valmir Leite, pai de
Eduardo e Pedro.
Nem sempre as crianças perdem peso depois de melhorar
a alimentação e sair do sedentarismo, mas
os índices que mais importam são o de aumento
de massa magra (músculos) e diminuição
de massa gorda. Os quilos a mais são absorvidos pelo
crescimento, o importante é não engordar mais.
Prova de que a brincadeira ajuda é o João
Pedro, 7, filho de Ana Claudia Soares, que com seis meses
de mudança de hábitos perdeu seis quilos.
“Eu caminho todos os dias com a minha mãe,
de manhã e de noite e adoro jogar futebol com meu
pai”, diz o garoto, que diminuiu as três escumadeiras
de arroz de cada refeição e aumentou a quantidade
de alface e tomate. Hoje o menino tem 1,33 m de altura e
44 kg. Tem um longo caminho pela frente, mas, brincando
a sério, ele chega lá.
10 ATITUDES PARA EVITAR QUE O SEU FILHO (E VOCÊ)
ENGORDE E FAZER COM QUE ELE COMA DE TUDO
1. Mastigar bem os alimentos.
2. Não comer diante da televisão, computador
ou videogame.
3. Fazer as refeições em família.
4. Não pular refeições (café
da manhã, lanche, almoço, lanche da tarde
e jantar).
5. Deixá-lo ajudar no preparo dos alimentos.
6. Limitar televisão e computador a duas horas diárias.
7. Praticar atividade física, seja em aulas ou brincando
em casa, no mínimo uma hora e meia por dia.
8. Não fazer da comida um prêmio nem uma punição
por qualquer tipo de comportamento.
9. Não obrigá-lo a limpar o prato a todo custo.
Fazer pratos menores ensinando colocar pouca quantidade
e repetir se quiser.
10. Dar o exemplo: seu filho vai ter uma dieta saudável
se você também tiver e só fará
atividades físicas se você o estimular.
BRINCANDO DE SE MEXER
Os benefícios dos esportes podem ser conseguidos
por brincadeiras simples e que ajudam seu filho a queimar
as calorias diárias que ele precisa. Os números
foram calculados para uma pessoa de 60 kg em 30 minutos
de atividade.
Jogar futebol: 330 kcal
Correr / pega-pega: 310 kcal
Judô: 285 kcal
Nadar crawl: 255 kcal
Pular corda / elástico: 220 kcal
Dançar / ballet: 200 kcal
Andar de bicicleta: 126 kcal
Arrumar a cama: 66 kcal
Jogar videogame: 50 kcal
Digitar no computador: 48 kcal
Assistir TV: 41 kcal
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Fonte: Revista Pais e Filhos - março
2007
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