Como
as escolas podem mudar a preferência das crianças
na cantina e prevenir a obesidade
Francine Lima
Um dos momentos mais aguardados pelas crianças
na rotina da escola, o intervalo, começa na
fila da cantina. Nessa hora, elas podem comer o que
quiserem. E, em boa parte das vezes, são escolhas
hipercalóricas e pouco saudáveis. “Quem
tem autonomia prefere refrigerante”, diz Julio
Cesar Salles, criador da rede Cantinas do Tio Julio,
que atua em escolas particulares de vários
Estados brasileiros. A alimentação feita
na escola contribuiu para o aumento da obesidade infantil.
O problema vai além das escolhas erradas feitas
pelas crianças. Nas escolas públicas
e nas particulares, quem monta o prato das crianças
pequenas é um funcionário. Isso costuma
facilitar o controle sobre o que elas comem. Também
pode dificultar.
Fátima Menezes, diretora da ONG Ação
Fome Zero, que premia municípios com boa gestão
da alimentação escolar, conta que já
viu merendeira servir comida a mais a aluno gordinho,
querendo agradar. “A alimentação
é muito baseada nas crenças pessoais,
e nem sempre o funcionário entende o que é
melhor para as crianças”. Um projeto
de lei em discussão no Congresso pretende exigir
que as escolas ofereçam uma alimentação
adaptada a alunos com diabetes, hipertensão
e anemia. Por enquanto, os cardápios, definidos
em cada município, exageram nos carboidratos.
“A realidade é bem diferente do que está
no papel”, diz Fátima.
"Impor restrições não é
certo. É a educação nutricional
que faz a diferença"
JOICE DOS SANTOS, nutricionista
Como conseguir que a meninada se alimente melhor na
ausência dos pais? A solução pode
estar ali mesmo, no balcão da lanchonete. O
primeiro passo, diz a nutricionista Martha Fonseca
Paschoa, da empresa Comer e Aprender, é encarar
a cantina como parte do projeto pedagógico
da escola e usar a hora do recreio para ensinar os
alunos a fazer escolhas melhores para a saúde.
No Colégio São Luís, em São
Paulo, onde a cantina é uma franquia da marca
School Cook, as opções saudáveis
são assinaladas no menu. “Impor restrições
não é certo. É a educação
nutricional que faz a diferença”, diz
a nutricionista da franquia, Joice Neris dos Santos.
Se o desafio para mudar a predileção
das crianças é convencê-las a
comer verdura e deixar o refrigerante de lado, a estratégia
encontrada pelos especialistas é a indução.
Em vez de inúmeras opções de
hambúrgueres, refrigerantes e doces chamando
a atenção da criançada no mostruário
e em propagandas na parede, elas passam a encontrar
imagens sugestivas e novidades atraentes no grupo
dos sanduíches naturais, saladas de frutas
e salgados leves. As guloseimas continuam lá,
mas menos à vista e em menor variedade.
Aulas e atividades sobre o assunto,
envolvendo os pais, são indispensáveis
para fortalecer o aprendizado. E os atendentes devem
ser treinados para dar continuidade à lição
na hora de servir. Embora algumas leis municipais
e estaduais já tenham imposto restrições
às cantinas escolares, de modo geral as escolas
particulares estão livres para vender o que
acharem melhor. Novos serviços têm permitido
aos pais monitorar o que os filhos compram na cantina,
como o cartão magnético com extrato
na internet que bloqueia a compra de certos itens
e o “kit lanche”, que a família
encomenda a cada mês e a criança não
tem como alterar. De resto, a escolha está
mesmo nas mãos de quem vende e de quem compra.
O jeito é transformar a autonomia das crianças
em conhecimento e bom senso.
O que a maioria das crianças escolhe

FRITURA
Rara em algumas cantinas e nas escolas públicas,
mas ainda presente e apreciada. Esta coxinha tem 331
calorias, 8,5 g de gordura saturada e 261 mg de sódio
SALGADOS
Assado não é sinônimo de inofensivo.
Alguns deles podem ser piores que fritura. O croissant
de presunto e queijo tem 609 calorias, 18 g de gordura
saturada e 1.008 mg de sódio
REFRIGERANTE
Banido em algumas cantinas, mas mantido em muitas
em razão da cultura familiar. O copo de 350
ml tem 37 g de carboidratos e mais nenhum nutriente
DOCES
Os carboidratos reinam soberanos na dieta infantil.
Biscoitos, sobremesas, balas, chocolates e açúcar
adicionado ao suco excedem o consumo recomendado
GRANDES PORÇÕES
Quando a escola não oferece almoço,
o estudante que passa o dia fora ataca sanduíches
como este cheese-tudo. Com os molhos, tem 670 calorias
e quase 2.000 mg de sódio
Fonte: Elaine Rupp, da empresa Comer e Aprender
O paladar da criança
pode ser educado desde cedo

FRUTAS
Misturas coloridas e pedaços pequenos se tornam
atraentes para quem costuma ter preguiça de
comer fruta. Esta salada tem 82 calorias, 1,20 g de
fibras e vitaminas A e C
FIBRAS
Embora menos que as verduras, a granola tem fibras.
Leite e iogurte são fontes de cálcio.
Um pote de 170 g de iogurte + 30 g de granola tem
205 mg de cálcio e 1,5 g de fibras
SALGADOS
Um lanche rápido fica saudável
se o recheio tem baixo teor de gordura e sal. A esfiha
de ricota e o sanduíche de queijo branco com
salada, juntos, têm só 900 mg de sódio
e 3,74 g de gordura saturada
SUCO
O natural é outra forma de acrescentar vitaminas
à dieta. O de caixinha ajuda a adaptar o paladar.
Este suco de laranja de caixinha (200 ml) tem 86 calorias
e vitamina C adicionada
DOCES
O paladar infantil pede o açúcar, e
não se deve bani-lo. Bolos ou biscoitos simples
saciam esse desejo e não pesam na balança.
Até um pouco de chocolate faz bem
Fonte: Elaine Rupp, da empresa Comer e Aprender
Fonte: Epoca
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